Opiniões

A reforma acadêmica de Delcídio (ou o psicodélico da universidade brasileira)

Está criada, pelas mãos deste petista e atual presidiário, a República da Universidade

José J. de Espíndola

2.dezembro | 2015

Talvez poucos saibam, está em curso no Senado da República um projeto de lei de autoria do senador Delcídio do Amaral (PT, atualmente preso pela Lava Jato, por determinação do STF), que consagra o populismo maléfico, já tão denunciado, nas universidades federais. É relator o senador Cristovam Buarque (PDT-DF).

Eis aqui a excrecência legislativa, germinada no bestunto do líder do governo popular e progressista do PT no Senado e, agora, preso por determinação do STF, por corrupção e obstrução da Justiça:

http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=136699&tp=1

O projeto do agora presidiário Delcídio do Amaral consagra o populismo deletério e medíocre e cria definitivamente a democratitica plena nas universidades federais, com a nomeação de reitores e vice-reitores pelo Presidente da República, após processo de votação direta e paritária de professores, alunos e servidores administrativos (STAs). O Conselho Universitário, ou outro Colegiado supostamente acadêmico é simplesmente ignorado no processo decisório.

Em suma, o projeto do hoje presidiário Delcídio do Amaral cria aquilo que o corpo docente responsável e competente tanto temia e sempre condenou. Quando falo em corpo docente responsável e competente, refiro-me à parte que representa o fim e razão de ser mesma da universidade: aquela parte que desde a Idade Média tem a missão de “gerar o conhecimento, guardar e sistematizar o conhecimento e difundir o conhecimento”.

O projeto cria, para a alegria do baixo-clero acadêmico, a “República da Universidade”, uma imitação grosseira, medíocre, subtropical e burra do modelo de Estado Democrático de Direito (EDD).

No EDD, somos todos contribuintes que colocamos nas mãos de uns poucos eleitos nossos impostos e contribuições para a administração e investimentos necessários ao país. Na universidade, ao contrário, somos, os docentes e STAs, empregados do Estado, para cumprirmos certas funções claramente definidas e absolutamente distintas: os docentes para “gerar o conhecimento, guardar e sistematizar o conhecimento e difundir o conhecimento” e os STAs para cumprir as atividades meio necessárias para o bom desenvolvimento da atividades fim impostas à docência.  

Já os alunos são também pagos pelos contribuintes, como forma de investimento, para uma única tarefa: estudar, tornarem-se quadros competentes para o país, capacitar-se para o mercado de trabalho, que é isso que a sociedade precisa e espera deles.

Também não é, a universidade, um sindicato ou um clube recreativo, onde tal modelo “democrático” tenha sentido e deva ser implementado.

Em suma, se a situação já estava ruim, o projeto do hoje presidiário Delcídio Amaral (senador do PT e líder do governo populista do mesmo partido, por sinal!) representa a pá de cal no prestígio à competência acadêmica, sem o qual nenhuma universidade jamais crescerá em qualidade.

Está criada, pelas mãos deste petista e atual presidiário, a República da Universidade.

Foi criada, esta perversa república, na contramão das universidades do mundo desenvolvido, aquelas que têm um acervo de contribuições invejável à criação do conhecimento e à geração de quadros fundamentais para o desenvolvimento de seus países. Sobre isto, recomento a leitura de dois textos meus, que se encontram nas seguintes URLs:

http://www.apufsc.org.br/Artigos.aspx?mode=detail&RowId=HupxFormContentID=2243&HupxFormContentID=2243
http://www.apufsc.org.br/Artigos.aspx?mode=detail&RowId=HupxFormContentID=2248&HupxFormContentID=2248

Mudando um pouco de assunto - para permanecer no mesmo -, mostro uma foto da mesa diretora da Audiência Pública de 26/11/2015, sobre este infeliz projeto de lei do Senado, presidida por Cristovam Buarque e tendo entre os seus integrantes o sindicalista e presidente do ANDES-SN (aquele notório sindicato afiliado ao CONLUTAS e já devidamente banido da maioria das universidades de maior peso do Brasil), Paulo Marcos Borges Rizzo, que se vê falando ao microfone.

Consta que este senhor também é professor da UFSC.


Foto #1-Mesa Diretora da Audiência Pública de 26/11/2015, presidida por Cristovam Buarque. O sindicalista Paulo Borges Rizzo, presidente do ANDES-SN fala ao microfone, ensinando a audiência e o Brasil como devem ser escolhidos os dirigentes das universidades públicas, segundo o projeto do hoje presidiário Delcídio do Amaral.
http://www.andes.org.br/andes/print-ultimas-noticias.andes?id=7868
 
O currículo Paulo Borges Rizzo, que se encontra na plataforma Lattes do CNPq (cuja URL é aqui reproduzida), é um exemplo acabado de indigência acadêmica:

(http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4799770Y3) .

Ligado à docência na UFSC desde 1982 (há trinta e três anos, portanto!) ele é ainda e apenas (conforme seu CV Lattes, revisado em 11/2014) um Professor Assistente IV. Isto não deve surpreender, já que sua vocação preferencial sempre parece ter sido a militância sindical de esquerda.

Para quem não está familiarizado, recordo que os cargos da carreira do magistério superior compreendem os seguintes níveis de Professor, em ordem crescente: Assistente, Adjunto, Associado e Titular. Os três primeiros níveis são, cada um, subdivididos em quatro etapas: I, II, III e IV. Têm-se, assim, Professor Assistente II, Adjunto III, Associado I, etc. Antes de pensar em tornar-se Titular, o topo da carreira, o docente deve galgar doze posições. O prestigiado membro da Mesa Diretora da Audiência pública do Senado, em trinta e três anos na UFSC, só ascendeu ao quarto degrau. E muito, muito pouco! Para sonhar o sonho impossível de se tornar Titular, terá ainda que ascender mais oito degraus. Na velocidade em que sobe na carreira, isto levaria mais 66 anos!

Seu doutorado em Geografia (conseguido em programa com precário conceito 04 da Capes) só ocorreu em 2013 (!), ou seja, 31 anos após ter sentado praça no Departamento de Arquitetura da UFSC.

Publicações em periódicos devidamente indexados? Nenhuma!

Apresenta três artigos em supostos ‘periódicos’, dois deles do ANDES-SN! (Não sabia, confesso minha ignorância, que o ANDES-SN, além do sindicato politicamente jurássico que sempre foi, era uma instituição acadêmica, com periódico acadêmico e tudo).

Pois é este senhor, com este currículo, neste país psicodélico e ardentemente terceiro-mundista, que aparece na Mesa Diretora da Audiência Pública de 26/11/2015, presidida por Critovam Buarque, supostamente representando os docentes das universidades federais brasileiras, ensinando o Brasil como deve ser uma universidade pública e como deve, esta universidade pública, escolher seus dirigentes. Ele certamente é a favor do populista projeto de lei que afronta o mérito na universidade pública, a coloca de quatro diante do populismo nefasto, medíocre e mediocrizante e a remete definitivamente ao terceiro-mundismo.

Por todos os lados que se olha, não se vê outra coisa: este é um país de loucos, de ponta-cabeça, com uma vocação incrível para prestigiar e alçar mediocridades em todos os setores da vida pública, dos dirigentes da República, aos dirigentes das universidades.

O que se tem em vista é um projeto de construção da República da Universidade, de autoria de um senador corrupto e agora preso, debatido em audiência pública tendo como “representante dos docentes” um sindicalista de profissão, insignificante Professor Assistente IV após 33 anos na UFSC, sem qualquer estofo acadêmico que o credencie para o ato.

O populista projeto de lei do senador presidiário mantém a essência do Art. 16 da Lei 9192 de 21/12/1995, que exige que o Reitor das universidades federais seja escolhido entre os professores dos dois níveis mais elevados da carreira (Associado e Titular), mas admite que, em tendo o grau de Doutor (independente da qualificação do curso que outorgou o grau), até um Assistente I possa ser escolhido. Um absurdo!

Por este critério, nada impede que Paulo Borges Rizzo venha a se candidatar um dia a Reitor da UFSC e, pior, ser eleito. Isto seria análogo a um jovem padre, por ter doutorado em Teologia, vir a ser eleito Papa e, consequentemente, passar a presidir o Colégio dos Cardeais. É o mais rasteiro populismo posto em prática pela Lei 9192 e mantido na atual proposta de reforma do atual presidiário.

 Por esse critério um Professor Titular, que chegou lá no topo por mérito acadêmico, terá que ‘bater continência para baixo’, chamar de Magnífico e prestar mesuras respeitosas a um desqualificado acadêmico, carreirista e demagogo político. É o ‘espírito acadêmico’, essência da universidade, jogado na lata de lixo do escárnio.

É assim que se constrói (ia dizer destrói, mas mantenha-se a ironia) a universidade pública brasileira neste infeliz Brasil.

*José J. de Espíndola,
Professor Aposentado da UFSC
 
 

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